Farinhada |
Comments: Quinta-feira, Julho 08, 2004
Vento ventania, me leve sem destino!
Na verdade, na verdade, mesmo, a confusão entre o Chorão, pugilista, digo, vocalista do Charlie Brown Jr., e o Marcelo Camelo, dos Los barbudos, digo, Hermanos, começou porque o Camelo meteu a corcova, digo, o nariz, onde não era chamado. Para quem não sabe ainda, se é que existe alguém que não saiba dessa estória, o Marcelo Camelo criticou, numa entrevista, que o Charlie Brown, sempre com uma postura meio contrária ao "sistema", tenha feito propaganda da Coca-Cola. Não deu outra. No aeroporto de Fortaleza, depois de muitas trocas de amabilidades no avião em que estavam juntos vindo para o Piauí Pop, Chorão usou a cabeça (aliás, bem grandinha) do jeito que mais sabe fazer: desferindo uma cabeçada no nariz do barbudo Hermano. Sendo, evidentemente, merecidamente socado e colocado de volta em seu devido lugar com a boca inchada. Chorão fez jus ao apelido. Como um bebê chorão, ficou nervosinho porque foi criticado e saiu dando cabeçada por aí. Por outro lado, Marcelo Camelo não tem nada a ver com que comercial o Charlie Brown faz ou deixa de fazer, já que a banda dele é outra. Pode até ter a opinião dele, pode até dizer "aonde está a liberdade de expressão" mas, na verdade, o que ele tem com isso, mesmo? Isso me fez refletir sobre duas coisas. Uma: até que ponto somos capazes de receber uma crítica? Até que ponto conseguimos ouvir alguém falar algo que nos desagrade, sem ter vontade de sair dando cabeçadas, mesmo que não literais, nas pessoas que nos criticam por alguma atitude ou pensamento? Poucas, pouquíssimas pessoas são capazes, realmente, de ouvir uma crítica com a cabeça num lugar mais adequado que o nariz alheio. Por outro lado: quem, de nós, consegue não criticar o comportamentos dos outros? Quem consegue ver, ouvir ou saber de idéias e atitudes de alguém sem ter aquela vontade irresistível de dar um pitaco, de dar um palpite, de cravar dentes de cobra peçonhenta no pescoço alheio, especialmente diante de um microfone da imprensa? Porque as duas atitudes são inerentes ao ser humano. Criticar e se defender de críticas. Achar que o outro está errado e defender seu ponto de vista. Marcelo Camelo não é vítima. Chorão não é agressor. Camelo não é agressor. Chorão não é vítima. Ambos são, tão e tão somente, gente. Ambos são vítimas e agressores. Ambos são humanos, apesar de duas personalides visivelmente distintas. Chorão é o eterno falso-adolescente-rebelde-sem-causa, que usa o sistema para sobreviver enquanto canta a decadência do mesmo sistema. Camelo é um homem sensível, poeta, intelectualizado, delicado, que sabe a força da palavra na letra de uma música ou reproduzida nas páginas de uma revista. Chorão usa a cabeça para revidar uma crítica. Camelo usa a cabeça para criticar algo que não é da conta dele. Chorão é um Dario Peito-de-Aço da música. Camelo é um misto de Chico Buarque com Romário. Ambos fazem gols, cada um ao seu estilo. Nenhum deles é vítima. Aliás, se tem uma vítima nisso tudo, é o público. Que viu nos dois casos dois shows chochos no Piauí Pop. Aliás, os dois únicos shows chochos. O do Charlie Brown cheio de mensagens cifradas, antipáticas e direcionadas ao Los Hermanos. O do Los Hermanos com um ar quase que calculadamente triste e um olho roxo em primeiro plano. Acima, até mesmo, das belas letras da banda. Que o Piauí Pop, uma festa de tantos belos exemplos, sirva, com esse caso Chorão x Marcelo Camelo, para que nos lembremos que cabeças são feitas para pensar, e não para agredir. E que a língua é um músculo que auxilia no processo da fala e, consequentemente, pode ser usada para desferir rosas ou facas em forma de palavras. * "Vento, Ventania" é música do Biquini Cavadão. Merecidamente, o mais novo xodó dos piauienses. Semana que vem falo sobre eles. Comments: Sexta-feira, Junho 18, 2004
O CALCANHAR DE BRAD PITT
O mais chato do filme Tróia é ver, em tela tão grande, o Brad Pitt. Mais do que chato, é quase insuportável. Pelo menos para nós, homens. Ver aquele cidadão na tela grande do cinema faz com que nós, homens normais, carecas, um tanto quanto barrigudos e com pêlos nas costas nos sintamos muito mais próximos do Homem de Neanderthal. Sinceramente, deviam proibir este rapaz de aparecer nos filmes de Hollywood. Ou, então, vá lá, pode aparecer, mas com ressalvas. Por exemplo: não poderia haver um close de Brad Pitt. Ou, então, ele só poderia ser gravado a uma distância mínima, digamos, de noventa metros. Ou: Brad Pitt só poderia fazer papéis de seres monstruosos ou deformados, como Corcunda de Notre Dame, Homem Elefante, Frankenstein, Nosferatu, Jason e afins. Não é por nada, não. É apenas uma questão de preservar a auto-estima que nós, pobres e feios mortais, temos jogada por terra quando estamos no cinema e vemos aquele moço em big close. É questão de saúde pública. É sabido que nós, indivíduos do sexo masculino, estamos sempre nos julgando superiores. Mesmo que sejamos cópias fiéis de Danny de Vito, acreditamos ser irresistíveis. Mesmo que tenhamos o charme de um Mazzaropi, nos olhamos no espelho e enxergamos Robert Redford. Podemos ter o físico do João Gordo que colocamos uma camiseta, vamos balançar as pelancas no calçadão e nos sentimos Gianechinni. Ver Brad Pitt no cinema arrasa nossas convicções masculinas mais arraigadas. Nos afunda na cadeira. Dá vontade de chorar. De procurar o Ivo Pitangui e fazer uma bela plástica. De fazer implante, ir pra academia e comer alface o resto da vida. Quanto ao filme, puro cinemão. Filme para se ver numa segunda-feira à tarde, matando serviço e comendo pipoca com guaraná. Muitas cenas de batalhas, um ou outro canastrão, uma Helena de Tróia definitivamente maravilhosa e que, se tiver sido linda daquele jeito, justifica qualquer guerra. Aliás, Helena de Tróia é uma figura interessante da mitologia, que o filme não valoriza muito. Diz-se que era a mais linda das mulheres. Filha de Zeus com a mortal Leda, que era mulher de Tíndaro, rei de Esparta, Helena de Tróia era casada com Menelau. Um belo dia conheceu Páris, filho de Príamo, rei de Tróia, despachou o marido e fugiu com ele. Como não poderia deixar de ser, daí aconteceu a famosa Guerra de Tróia, que durou sete anos. Até que Páris morreu e a lenda se divide em várias versões. Numa delas, Helena, que pelo visto não era lá muito flor que se cheirasse, casou com o cunhado, Deífobo. Mas depois entregou o terceiro marido ao mesmo Menelau, para salvar a pele quando Tróia foi derrotada, e voltou para o primeiro marido, voltando então para Esparta e vivendo com ele até a morte. Já outra versão diz que Helena sobreviveu mas foi expulsa de Tróia pelos cunhados, e enforcada em Rodes por Polixo, uma rainha que perdeu o marido na Guerra causada por Helena. Outra versão diz, ainda, que a mocinha danada acabou mesmo foi vivendo com Aquiles, o do calcanhar, que no filme Tróia é o Brad Pitt, que, aliás, morre no final. Pois bem. Tudo isso para dizer que, mesmo o Brad Pitt, com todo seu charme e beleza que beira a sacanagem com os espécimes masculinos da raça humana, tem, com o perdão do trocadilho, um calcanhar de Aquiles. Durante as gravações do filme, Brad Pitt teve uma contusão no tendão de Aquiles, não o do personagem, mas o tendão, mesmo, dele, Brad Pitt, que é, no caso o Aquiles. Ah, você entendeu... Isso obrigou a produção a ser atrasada até que ele se recuperasse. Portanto, homens de todo o mundo, uni-vos! Quando sua namorada, noiva, ficante ou esposa disser que ele é lindo, encha o peito, sorria de lado e diga: "Pode ser, mas também tem o seu calcanhar de Aquiles". Não vai adiantar nada, eu sei. Mas, pelo menos, é uma forma de nos sentirmos um pouquinho iguais a ele. Comments: Quinta-feira, Junho 03, 2004
SOBRE COISAS QUE ANDO IMPLICANDO - II
Ando muito, muito implicante. Ando implicando com tudo. Pura rabujice. Deve ser a idade. Ando implicando com gente que põe muito perfume. Insuportável! Perfume demais deveria dar processo por poluição do ar. Deveria existir um medidor, assim como existem os medidores de decibéis. Passa alguém na rua, o detector apita e chega um guarda. - Minha senhora, São seis e meia da manhã e, a essa hora, só é permitido transitar com até uma gota de perfume atrás de cada orelha. O perfumômetro acusa que a senhora usou pelo menos meio litro. Vou ter de multá-la. Não, não, não me ofereça dinheiro, senhora, senão a coisa vai feder! Ando implicando com os políticos. Todos. Bom, quase todos, porque ando desimplicando com o Lula. Não sei porque, não me pergunte. Acho que é porque eu sempre gostei dele. Mesmo que ele tome umas canas por aí, o que é pura implicância da oposição. Mas, mesmo assim, ainda bem que PIB é Produto Interno Bruto. Se fosse líquido, sei lá, vai que ele bebia. Ando implicando com o Zeca Baleiro. Com ele e com o Caetano, aliás, com o Caetano já há algum tempo. Ando implicando também com a TV brasileira. Chata. Burra. Ando implicando com o Felipe do Flamengo. Não sei bem porque. Um pouco por ele ser do Flamengo, mas não sei explicar se é só por isso. Ou se é por ele ter cara de malandro. Impliquei com quem tem cara de malandro, jeito de malandro e sotaque de malandro. Impliquei e pronto. Mas nunca impliquei com o Ronaldo Fenômeno, mesmo estando ele parecido com a Vovó Mafalda. Em compensação, impliquei de uma vez por todas com o Maradona. Ele não está a cara da Alcione? Ou é implicância minha? Vai ver é porque ele está mesmo em fim de carreira. Ou no fim das carreiras. Ou no fim por causa das carreiras. Ah, mas tanto faz. Impliquei. Outro dia fui ao cinema e impliquei com o filme. Van Helsing. Bobo, chato, feio. Não creio ser implicância, mas pode ser que seja. Mas não impliquei com o Kill Bill. Apesar de sempre ter implicado com o Tarantino, mesmo sem implicar com os filmes dele. Ando implicante, mesmo. Implico cada vez mais com o Galvão Bueno. Outro dia ele disse que a reta do circuito de Mônaco é torta. Como assim, uma reta torta?O que fizeram com a geometria? Cala a boca, Magdo! Sei, sei... Foi força de expressão. Mas impliquei, ora! Implicar com as coisas acontece de repente. Não se explica. Você gosta de algo, até, mas, por algum motivo, de repente implica com esse algo. Tem coisas que a gente implica sempre. Tem coisas que a gente desimplica depois de algum tempo. E tem gente que diz que não implica com nada. Mentira. Quem diz isso diz só para implicar com a gente. Eu implico, sim. Ando implicando com o espelho, Por exemplo. Chato, esse negócio de espelho! Até porque espelhos implicam com a gente sempre. Sempre mostram uma ruga nova, um fio de cabelo branco novo, ou uma falta de cabelo mais acentuada. Aí a gente implica com a gente. Aí a coisa complica. Porque quando a gente implica com a gente, implica que a gente ficou tão implicante, mas tão implicante, que é capaz até de fazer um texto falando sobre isso só pra implicar com o leitor. Desculpe. Não implique comigo. Isso passa. Comments: Sexta-feira, Maio 14, 2004
SE BEBER, NÃO DIRIJA. SE DIRIGIR, NÃO BEBA.
Deu no New York Times que nosso presidente é um pé-de-cana. Eu, que ando criticando muito o Lula, já que por ser fã dele me dou esse direito, dessa vez vou defendê-lo: mentira. Hic. O problema é que o Lula volta e meia faz por onde. Esse negócio de presidente aparecer em público tomando cerveja ou ficar de churrascada com o Zeca Pagodinho só pode dar nisso, mesmo. Hic. Minha sugestão: Lula, baixa um decreto aí, dizendo que a bebida oficial do Presidente do Brasil é guaraná em pó. Ou suco de laranja. Ou caldo de cana. E nada de aparecer em Oktoberfest tomando chopp no metro. A bebida oficial do Brasil não pode ser a caipirinha. Deve ser o leite. Apesar de muita gente não poder tomar nem um copo por ano. Ou, quem sabe, até por isso mesmo. Incentivar o povo a trocar o copo de cachaça por um copo de leite. Isso sim seria um bom exemplo. Eu já vi o Lula na primeira página da Folha de São Paulo tomando cerveja. Que tal colocá-lo tomando Nescau? Hic. Hic. Bem, como qualquer pessoa, claro que o presidente tem o direito de bebericar um ou outro Romaneé Conti aqui ou ali. Mas, pôxa, tranca as portas, fecha as cortinas e enche a cara. Depois vai dormir! Hic. Outra coisa: seu Lula, por favor, pára de falar de improviso. Vamos escrever o que é pra ser dito, e dizer o que tá escrito. Nada de ficar por aí dizendo que a capital da Namíbia nem parece a África. Isso é mesmo coisa de bebum. Quem leu a matéria pilantra do americano e fica sabendo dessas coisas faz uma ligação imediata. Isso porque ninguém tá nem levantando a questão das promessas de campanha. Senão, iam dizer que estava claro que tudo era papo de bêbado. Hic. Agora, por outro lado, quem é que está assessorando o presidente em certos assuntos, hein? Porque mandar expulsar o jornalista do país é outra bobagem sem tamanho. Processar, tudo bem, porque calúnia e difamação é crime. Mas expulsar é coisa de quem tá numa ressaca braba. Não tá certo. Hic. Vamos fazer o seguinte: convida o cidadão pra um churrasco. Com direito a pagode, caipirinha e pelada. Digo futebol, que fique bem entendido! Vamos encher a cara dele. Vamos fazer ele trocar as pernas de tanto tomar umas e balançar o esqueleto. Mas com o Lula tomando só leite! Ou garapa. Ou suco de caju. Depois, a gente faz uma foto dele, do jornalista, bêbado, pelado e babando. Mais ou menos como os soldados deles estão fazendo lá no Iraque com os prisioneiros. Pronto. Agora só tomar umas para comemorar a vingança. Hic. Primeira página. No NYT. Ao lado do Bush se engasgando com pretzel. Olha, seu Lula, então é isso. Não ligue pra essas afirmações, não. Mas é bom se cuidar. Agora, vamos esquecer esse assunto, que já rendeu mais do que devia, e voltar a nos preocupar com o que realmente interessa: emprego, segurança, saúde, educação. Não esqueça dos dez milhões de empregos prometidos. Não esqueça do Fome Zero. Não esqueça de tanta coisa que foi dita na campanha, há mais de um ano e meio. Porque, se esquecer, daqui a pouco vão dizer que o que aconteceu foi que o Presidente do Brasil teve amnésia alcoólica. Hic. Comments: Segunda-feira, Abril 26, 2004
Comments: Comments: Sexta-feira, Abril 23, 2004
ISSO AQUI, ÔÔ...
Minha filha June vai fazer cinco anos em agosto. Outro dia, em um almoço de domingo no shopping, ela me disse que tem medo de ladrão. Não tem medo de bicho papão, nem de barata e nem de cobra. Só de ladrão. O Governo Federal anunciou um corte no orçamento da segurança pública para 2004. De 440 milhões para 336 milhões de reais. Noves fora, nada, acaba que, em 2004, o Brasil oficial irá investir a astronômica quantia de R$1,98 (um real e noventa e oito centavos) na segurança de cada cidadão brasileiro. Durante um ano inteiro. Por mês, menos de dezessete centavos. A sua segurança, meu amigo, a segurança de seu filho, cara amiga, vale menos de dezessete centavos por mês no país do futebol. Um pouco mais do que três balinhas de hortelã na padaria da esquina. Cada deputado federal custa, entre salários, benefícios e assessores, 68 mil reais ao mês aos cofres públicos. Eles trabalham de terça a quinta. Têm 90 dias de recesso parlamentar. Isso, no calendário oficial, claro. Na prática, são mais de cento e oitenta dias de recesso por ano. Essa semana que passou, por exemplo, o Congresso não votou nada. Os deputados estavam aproveitando o feriadão. Noves fora nada, de novo, um deputado federal vale R$ 2.266,66 (dois mil, duzentos e sessenta e seis reais e sessenta e seis centavos) por dia. Noventa e quatro reais e quarenta e quatro centavos por hora. Indo ou não à Câmara. Um trabalhador brasileiro assalariado ganha, quando tem emprego, duzentos e quarenta reais por mês. Oito reais por dia, em média, não considerando domingos e feriados. Um trabalhador brasileiro trabalha de segunda a sábado e tem direito a férias trinta dias por ano. Quando tem. Se não for trabalhar, tem o ponto cortado. Perde o emprego. Um deputado federal recebe três mil reais por mês de auxílio moradia. Trinta e seis mil reais em um ano. Um trabalhador brasileiro que tem a sorte de receber um salário mínimo ganha R$ 2.880,00 (dois mil, oitocentos e oitenta reais) por ano. Para comer, vestir, pegar condução, ir ao médico, comprar material escolar para os filhos. E pagar aluguel. A verba de propaganda do Governo Federal é de 1,3 bilhão de reais. Cento e oito milhões de reais por mês. Três milhões, seiscentos e onze mil reais por dia. Cento e cinquenta mil reais por hora. Minha filha June vai fazer cinco anos em agosto. E tem medo de ladrão. E, repito: o Governo Federal fez cortes no orçamento para a segurança pública. Agora, vai gastar menos de dezessete centavos por mês com a segurança da minha filha de cinco anos que tem medo de ladrão. Brasil. Comments: Quarta-feira, Abril 07, 2004
A PROPAGANDA É A ARMA DO NEGÓCIO
A verba destinada pelo governo Lula para a propaganda oficial em 2004 foi de 1,3 bilhão de reais. Um pouco menos que em 2003, quando o governo trabalhista gastou 1,4 bilhão de reais. Só para divulgar ações do Governo Federal: bancos, companhias elétricas, Correios, comunicação institucional, e por aí vai. É muito dinheiro. Quase 450 milhões de dólares. Só com propaganda. Pode parecer pouco para um Governo Federal. Mas não é. Só para efeito de comparação: 1,3 bilhão de reais é mais da metade do que o Piauí tem, durante todo o ano, para cuidar da saúde, educação, estradas, folha de pagamento, manutenção dos prédios públicos, investimentos na agricultura, na indústria, merenda escolar, etc, etc, etc. Ou seja: o Governo Lula vai gastar mais de meio Piauí para dizer para o Piauí e para o Brasil que é bonzinho. Pior: todo esse dinheiro é empregado para tentar nos convencer de que o país vai muito bem, obrigado. Mas não. Na verdade, o país vai porque é obrigado, muito bem. Obrigado a seguir em frente mesmo com o aumento da concentração de renda, muito bem. Isso não é só culpa do Governo Lula, eu sei. Mas ele é a bola da vez. E é dele que devemos cobrar. Vai ter gente dizendo que estou jogando contra o patrimônio. Tô nem aí. Tem gente que prefere fingir que está certo um país como o nosso torrar mais de um bilhão de reais em propaganda porque, claro, faz parte da engrenagem que queima essa grana. Eu também faço, mea culpa, mea culpa, mas prefiro continuar achando que é muito dinheiro e que ele poderia ser melhor empregado. Preferia que fosse diferente. Até porque, entre outras coisas, me incomoda assistir a um comercial do Banco do Brasil, da Caixa Econômica, com seus gerentes sorridentes e clima de banco holandês quando, na verdade, passo duas horas e meia na fila para pagar uma conta de luz. É muito ruim assistir um comercial que diz que mais de 400 novas ambulâncias estarão circulando Brasil afora quando tem gente dormindo na fila do hospital para pegar uma senha para voltar daqui a seis meses para fazer uma consulta com o oculista. É hipócrita. É cínico. É maquiavélico, quase. Me diz: porquê eu tenho que financiar a propaganda oficial? Porquê o dinheiro dos impostos que eu pago deve servir para o Lula dizer pra mim que é um presidente legal? Não quero. Prefiro ver os comerciais do Mc Donalds que, pelo menos, a gente escolhe se quer ir lá ou não. Do que me adianta ver um comercial do Ministério do Trabalho se eu não tenho emprego? Se eu for lá pedir vão me arrumar? Vamos juntar 10 milhões de pessoas e ir, então, que estão nos devendo. Deveria haver uma lei que restringisse propaganda oficial. Governos Federal, Estaduais e Municipais. No máximo, campanhas de cunho social: vacinação, campanhas educativas e afins. Ah, o comercial tá dizendo que o Presidente fez isso? Opa! Não pode. Processa. Mas o Governo tem de divulgar o que fez... Ótimo. Então, um balancete semestral gratuito nos jornais resolve. "Fizemos isso, aquilo, aquiloutro". Aí usa o dinheiro pra fazer qualquer outra coisa. Chega de propaganda. Chega de Fome Zero. Transforma a verba em comida e dá pro povo. O melhor comercial que o Banco do Brasil poderia fazer seria acabar com as filas. Contratar funcionários. Estimular os pequenos empresários com financiamentos a juros baixos. Ou coisas assim. Além disso, quando você assiste um comercial que não reflete a realidade, pode ir ao Decom reclamar. E, por favor, onde a gente vai reclamar das campanhas do Ministério da Saúde daqui a seis meses, se ainda sair vivo da fila do hospital? Comments: Sexta-feira, Abril 02, 2004
A PAIXÃO DE GIBSON
Tenho certeza que se "A Paixão de Cristo", do Mel Gibson, não fosse sobre a própria e, sim, sobre a paixão de Joaquim, de John ou de Zé Ninguém, das duas uma: ou o filme seria desprezado ou faria de Gibson um novo Quentin Tarantino. O sangue que espirra na cara da gente não seria tão salgado se não fosse derramado pelo Filho de Deus. O filme não iria chocar tanto se quem levasse trinta e duas chibatadas de sádicos e "clichezados" soldados romanos fosse um pobre, negro e favelado, de qualquer cidade brasileira. Mas é Dele, do Messias. O sangue que Ele derramou por nós no Calvário choca muito mais do que o sangue derramado em cada esquina do Brasil por tantos "filhos de Deus" porque nos lembra que cada chibatada, cada naco de carne que pula na tela, cada passo dado entre os 500 metros que separavam o palácio de Pilatos da colina do Gólgota, com o pecado do mundo nas costas, foi o preço que Cristo pagou para nos livrar do mal. A Paixão de Gibson choca muito mais por nos deixar com a sensação de que não fomos merecedores do seu sofrimento do que por ser realmente algo de uma violência nunca vista no cinema. Já se viu coisa muito pior, em termos de sadismo e sanguinolência. Já se viu coisa pior em termos de violência. Não há, na verdade, porque tanto choque. São cenas fortes, sim. Mas são fortes, principalmente, pelo simbolismo impregnado em nossa mente cristã desde crianças. São fortes porque doem na alma da gente. Diz-se que é um filme anti-semita. Não acho. Opinião de leigo, claro. Mas mesmo assim, não acho. Seria como dizer que qualquer filme que mostre nazistas é anti-germânico. Diz-se que é um filme superficial. E é, mesmo. Um filme que trata das últimas doze horas de Cristo não teria como não ser superficial e precisa ser focado no que aconteceu nesse período. Além do mais, todo cristão tem, em tese, obrigação de conhecer toda a história do Salvador. Está tudo na Bíblia. Estão todos lá. Se você é cristão e não reconhece os personagens do filme, não é o filme que é ruim. É você que é um cristão, no mínimo, relapso. Como eu sou. Não reconheci vários deles. Mas fui buscar quem era quem. E conheci Verônica, e conheci Simão Cireneu, e conheci um pouco mais do que conta o Livro Sagrado. É muito fácil criticar Gibson e o sangue da Paixão de Cristo. É mais difícil criticar a nós mesmos e ver que aquilo tudo que Ele passou para nos redimir parece ter sido em vão. É mais difícil convencermos a nós mesmos de que se aquilo tudo que vimos acontecesse hoje, em 2004, poderia ter o mesmo final. Você, aí, acreditaria que um homem pobre, de barba, dizendo-se filho de Deus, não era um louco? Você não o iria crucificar, mesmo de forma metafórica, na mesma hora? Pode até dizer que não. Não duvido de você. Mas, tem certeza? Eu gostei do filme. Existem outros melhores. Existem filmes que mostram toda a mensagem de paz, esperança e fé deixada por Cristo. Óbvio. Mas o que esse filme tem de diferente é justamente a crueza das imagens. Que embrulham mais do que o estômago: embrulham o peito. E não é pelo sangue. O "sensacionalismo" de Gibson choca muito mais por nos fazer perceber que a mensagem de paz já não nos impressiona mais. Porque, sangue por sangue, a gente pisa nele toda noite, ao sair do trabalho e ir para casa. E não está nem aí. Comments: Quinta-feira, Abril 01, 2004
NÃO É MENTIRA DE PRIMEIRO DE ABRIL
Amanhã, dia 2, a Farinhada volta a ser atualizada toda sexta-feira. Peço desculpas aos visitantes. Um ciclone passa de vez em quando pela vida da gente, né? Até amanhã! Comments: Sexta-feira, Março 12, 2004
UMA LÁGRIMA POR MADRI
Pouco me importa se foi a ETA, a Al Qaeda ou o Movimento Pela Libertação dos Anões de Jardim. Nada, absolutamente nada, justifica explosão de trens, derrubada de prédios e outras formas de assassinato em massa. Nenhuma causa, nenhuma reivindicação, nenhum sonho, nenhuma luta é suficientemente relevante para dar legitimidade a essa forma de massacre de gente inocente, de crianças, de gente que não sabe sequer o que significa país, quanto mais o que é política internacional, alcorão ou o que quer que seja. As duzentas mortes do 11 de março em Madri trazem de volta à lembrança as cenas de horror do outro 11, o de setembro, em Nova Iorque. Feridas que não cicatrizam, que horrorizam qualquer pessoa com o mínimo de massa cinzenta no cérebro e um pouco de sangue nas veias. Imagens que não deixam dúvidas: não existe nada tão cruel nesse mundo quanto a raça humana, única que gera seres capazes de produzir coisas tão bárbaras, tão violentas. Pouco me importa se foi a ETA, a Al Qaeda ou qualquer outra sopa de letrinhas que destrói, mata e apavora em nome do que quer que seja. Se foi a ETA, que se danem eles e a sua causa. Uma causa que beira o ridículo, de separar uma região rica e próspera de um país que cresce e encanta o mundo, e que não tem o apoio nem de um terço dos que, em tese, deveriam apoiar a tal separação. Se foi a Al Qaeda, que se danem Bin Laden, eles e sua causa, causa de, em nome de alguma coisa que ele chama de religião, transformar o mundo em um paraíso de turbantes e longas barbas. Se foi outra organização assassina qualquer, que se dane essa turba e suas reivindicações. Que se danem os seus ideais, que se danem as suas convicções imbecis. São, simplesmente, assassinos, bárbaros, cruéis, covardes, incapazes, inclusive, de admitir claramente que são os responsáveis. Não são líderes, não são heróis, não são nada além de excremento sobre duas pernas. Covardes. São, apenas, covardes com detonadores nas mãos. Pouco me importa, na verdade, se Bush é o que quer que seja, se Blair é o que quer que seja, se Aznar apoiou quem quer que seja no que quer que seja. Sejam eles quem forem, sejam eles aberrações ou não, não é possível aceitar, como ainda existe gente que aceita nesse mundo, que atitudes como matar duzentas pessoas que vão ao trabalho, que vão às compras, que vão visitar parentes, que vão procurar emprego numa ensolarada manhã de um dia 11 qualquer, sejam justificadas com o que quer que seja. O único consolo é perceber que essa mesma raça humana, capaz de produzir esses bandidos assassinos, é capaz de produzir cenas de comover qualquer pessoa dotada de um coração nesse mundo. Gente simples, comum, que com sangue misturado a lágrimas e desespero e esperança e medo e dor e espanto e sem carregar qualquer bandeira política simplesmente ajuda, doa, doa sangue e lágrimas e amparo e esperança a quem sentiu na carne a dor da barbárie. Vai chegar o dia em que essa gente, gente que, sim, é gente de verdade, que fala com o idioma da alma e professa a religião da compaixão e reza a oração da vida, vai estar à frente de todos os países, de todas as religiões e de todas as convicções. Uma lágrima pelos mortos de Madri. Uma lágrima por mais essas vítimas da estupidez. Comments: Sexta-feira, Fevereiro 27, 2004
MEU NOME É ZÉ PEQUENO
Apesar de achar a festa do Oscar um negócio um tanto quanto brega e chato, já separei meu pacotinho de pipoca pra assistir tudinho, do começo ao fim. Se bem que acho mais fácil o Sylvester Stallone decorar e pronunciar três frases consecutivas sem babar do que Cidade de Deus ganhar um Oscar. Entre outras coisas, estou aqui contando os minutos porque Cidade de Deus é uma das provas (raras, bem dito) que damos ao mundo de que somos bons em alguma coisa. Aliás: é uma das (raras, de novo) vezes que podemos dizer, a nós mesmos, que somos bons em alguma coisa. Que vamos nos ver, por alguns efêmeros minutos (quem sabe, segundos) sentados jantando num banquete lado a lado com o patrão. Outro dia, numa roda de amigos, eu disse que achava que um Oscar agora podia ser ruim para o cinema brasileiro, já que poderia fazer com que nosso renascido (ou em vias de renascer) cinema buscasse a partir de então não "o filme", mas "o Oscar", nos tornando vítimas de nosso próprio sucesso. Claro, reconheço, pura tolice. Usei a lógica torta de quem tem medo de realizar um sonho antigo, só por não saber o que vai acontecer depois que o sonho deixar de ser sonho. Fiquei com receio de, mais uma vez, nos destacarmos pelo exótico, pelo estranho, pelo freak. Por mostrar ao mundo, numa tela enorme, uma de nossas muitas faces. Uma das faces mais duras, aliás. Uma face cruel, real e incômoda. Uma face que usa bigode, é negra, dentuça e se chama Zé Pequeno. Porque Zé Pequeno é, sim, uma das caras do Brasil. Eu tenho cara de Zé Pequeno, você também. Nós temos cara, e sempre nos orgulhamos disso, de malandros, de sujeitos espertos, cheios de ginga. Que gostamos de cachaça, samba, mulatas de bunda de fora, e de levar vantagem em tudo, certo? Se o Brasil tivesse carteira de identidade, poderia, tranqüilamente, colocar no lugar da foto um 3 x 4 de Zé Pequeno. Acho, portanto, mesmo ainda não acreditando que isso vá acontecer por conta de tanta coisa que não vale a pena dizer aqui, que Cidade de Deus deveria ganhar pelo menos um Oscar. Porque é bom, porque é profissional, porque foi feito com talento, dedicação, competência, cuidado, paixão. Mas, principalmente, pelo bem da nossa imagem lá fora. Quem sabe, tendo um filme que expõe nossas vísceras ao mundo sendo badalado, comentado e literalmente vendido, se pudesse fazer alguma coisa para mudar essa imagem de uma vez por todas. E lembrei de um artigo recente que li, do próprio Fernando Meirelles, onde ele diz que há cerca de um ano declarou à imprensa de todo o mundo que os Governos Federal, Estadual do Rio de Janeiro e a prefeitura da cidade maravilhosa estavam, por conta da repercussão do filme, lançando projetos para beneficiar a verdadeira Cidade de Deus. Iam construir uma fábrica de material esportivo, um espaço Criança Esperança (com ajuda da Globo) e realizar outros projetos em benefício da comunidade. Um ano depois, nada, absolutamente nada, foi feito. E Meirelles termina o artigo com a seguinte frase: "Cada vez mais torço para que o Peter Jackson (de Senhor dos Anéis) leve mesmo aquela estatueta. Acho que sentiria vergonha se eu ganhasse. Coloque-se no meu lugar e pense na população de Cidade de Deus assistindo à transmissão. Você há de se sentir envergonhado comigo". Se me permite, caro Meirelles, discordo. Quero mesmo é que seu filme, aliás, o nosso filme, ganhe um Oscar. Vou chorar por dentro de tanto orgulho. Porque quem tem de sentir vergonha são eles, lá em cima das torres do poder. Não você, eu ou o povo da Cidade de Deus. Comments: Sexta-feira, Fevereiro 20, 2004
AVE, MOMO!
Olha, não me leve a mal, que hoje é carnaval. Mas que o Brasil tá ficando um país engraçado, tá. As últimas semanas foram pródigas em acontecimentos muito interessantes. E olha que o ano ainda nem começou! Por exemplo: passou-se não sei quantos dias discutindo-se sobre uma argentina que é mistura do Caniggia com a Xuxa, mais uma arara e uma porta. Motivo: fotos onde ela estaria mostrando a Patagônia numa boate de strip-tease. Curioso. Mostrar a Patagônia na boate dá problema, botar a Patagônia de fora na Playboy dá fama e dinheiro. E o cara, o tal dono da boate, se chama Sady Baby. Uma semana vendo, na tv, um tal de Sady Baby, dono de boate de strip em Florianópolis. Tv por assinatura grátis para o povo, pelo amor de Deus! E o pior é que ele é a cara do Ovelha, aquele cantor (?) que, graças a Deus, Alá, Brahma e sei lá mais quem, desapareceu. Imagine, um país discutindo se o fato de botar sua BBB de fora faz da moça que troca "jota" por genitália uma desqualificada. Cheiro de golpe de marketing. Não sei, posso estar ficando doido. Deve ser o qüinqüídio momesco me perturbando o juízo. Brasília, 13 de fevereiro. Sexta-feira, ano bissexto. Descobre-se que a nova elite popular governante desgovernada tem mais um problema, além da língua presa/solta: problemas com os braços. O aviso já tinha vindo antes, em forma de bursite presidencial. Agora, problemas com o braço-direito de José Dirceu, que por sua vez é o braço direito de Lula. Bingo! Chamem o acupunturista do presidente, que ele dá um jeito. Ele não deu um jeito na bursite? Pode dar um jeito nessa bullshit, porque não? E é bom dar um jeito logo, porque se esse problema chega ao Palófi, vai que ele pesa o braço nos juros e acaba de ferrar com a economia? Se não me engano, o nome do acupunturista presidencial é Anghu. Então, tão precisando colocar Anghu nesse caroço. Agora, um cara que tem nome de ponta-direita de time de várzea, Valdomiro, querer levar um por cento é até louvável. Afinal, como disse meu amigo Ricardo Dias, a praxe é 10% no país da bandalheira. Desperdício mesmo foi a torta na cara do Berzoini. Melhor se fosse doada ao Fome Zero. Bom, os velhinhos acharam que ele mereceu. Eu fiquei com pena. Da torta, bem explicado. Claro, acho que é falta de educação e de respeito pela autoridade, e tal e coisa. Mas ele nem é tão velho assim. Agüenta o tranco. Difícil é ter 90 anos e ficar na fila pra provar que está vivo. Torta na cara é até algo, digamos, doce. Delicado. Parece que era de creme. Se fosse de coco, era algo mais nojento. Eca. Bom, mas agora, vamos ao carnaval desse décimo ano de governo FHC. Todo mundo botando o bloco na rua. Aqui, em Teresina, tem gente botando bloco na rua em forma de panfletos e adesivos. Isso promete uma campanha meio baixo nível. Mas, como diz Diogo Mainardi, campanha com baixaria pelo menos diverte. Acho que o PT deveria fazer uns também. Ao invés de processar, devolver. Atacar. Pelo menos, a gente ia ter um motivo pra rir, já que a linguagem costuma ser rasteira e direta. Panfleto é engraçado. Ótimo pra ler na fila do desemprego. Ebalaraôôôô, epolebará! É carnaval, no país do samba do crioulo doido. Comments: Terça-feira, Fevereiro 17, 2004
A Estética do Arrepio
Se tem uma coisa que eu gosto nessa vida é de ir ao cinema. Por mim, iria duas, três vezes por semana. Se o dinheiro desse, claro. Assim, tenho ido muito ao cinema nos últimos meses. Vejo quase tudo que tem passado pela cidade, e muita coisa, ainda, no vídeo, em casa, e pela Sky. E, como não podia deixar de ser, converso muito sobre cinema, mas com olhos de espectador, já que quem entende mesmo desse negócio é meu amigo Douglas Machado. E tenho percebido uma coisa, que pretendo discutir com o Douglas no próximo macarrão de fim de semana: o cinema, hoje em dia, não está real demais? Parece que a estética em voga, pelo menos nos filmes ditos "comerciais", é a estética do arrepio. É a estética do realismo cru, a estética do mundo real. Houve um tempo em que filmes de terror beiravam o ridículo: vampiros com capas pretas e vermelhas e penteados à base de gomalina, que viravam morcegos de borracha. Os musicais de Hollywood eram puro romantismo: Gene Kelly cantando e dançando na chuva, Fred Astaire e Ginger Rogers pulando por cima de cadeiras e sofás, lutas de gangues coreografadas como balés. No meio de uma festa todo mundo começava a dançar curiosamente a mesma coreografia, cantando e sorrindo. E os beijos? O que hoje seria considerado uma bitoquinha inocente era tratado como o de mais voluptoso e ardente poderia existir nesse mundo. Nunca me esqueço dos filmes de bangue-bangue em que os bandidos levavam um tiro no peito e caíam para frente, contrariando as probabilidades de que a lei da gravidade agisse e os empurrasse para trás. Hoje, um menino que for brincar de mocinho e bandido e levar um daqueles tiros imaginários precisa, no mínimo, pular 8 metros para trás, se esborrachar na parede e deixar sair da cabeça meio quilo de massa encefálica. Hoje, se parece em baixa a estética do filme "explosão e fumacinha", tipo Rambo e coisas afins, com seus exageros e apelos heróicos, parece que estamos vivendo a era dos anti-heróis, dos personagens ambíguos, que você não sabe bem se deve torcer contra ou a favor. Tudo muito real, muito humano. Se depois da fase dos morcegos de borracha o que assustava eram os sonhos em que aparecia Freddy Krueger ou um boboca com uma máscara chamado Jason, hoje o medo vem na forma de Hannibal Lecter, um serial killer que come cérebros no almoço e parece igual a tanta gente por aí. Se antes um beijo romântico de um casal rolando na areia causava certo frisson, hoje, no Festival de Cannes, já se mostra um estupro com sexo explícito e, segundo quem viu, requintes de direção que levam mulheres a crises de choro na platéia. Se antes o cinema brasileiro, por exemplo, era feito de imagens alegres e caricatas, de Grande Otelo, Oscarito e depois de pornochanchadas quase adolescentes, hoje o que "queremos" ver é Central do Brasil, com a realidade gritando na tela, é Cidade de Deus, com a crueza da guerra do tráfico. Enfim, se o mundo parece mais duro, mais cruel, mais áspero, parece que o cinema também anda assim. Por isso filmes tão fantasiosos, como o maravilhoso "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" (tão lindo e romântico) às vezes causam estranheza. Mesmo os romances andam reais demais. O pessoal casa, separa, trai, engravida, volta, descasa. Como na vida real. Parece que não há mais espaço para namoros eternos, amores platônicos, gente dançando sem cheirar pó ou cantando debaixo de chuva sem ser assaltado por uma gangue juvenil. O cinema, não sei ainda se feliz ou infelizmente, anda muito, muito parecido com a vida. Comments: Domingo, Fevereiro 08, 2004
Farinhada virando fonte
A Farinhda foi citada no Webdomadário, um dos blogs com os melhores textos da net. Vale a pena conferir, o blog, a citação e todos os textos que estão lá. O link tá aí: www.webdomadario.blogspot.com/ Comments: Sexta-feira, Fevereiro 06, 2004
Lula Cá
Dizem os maldosos de plantão que o problema todo das enchentes no Brasil e, em especial, no nordeste, é o PT: o governo estaria fazendo água. Maldades oposicionistas à parte, a coisa tá séria mesmo. Tanto que nosso presidente língua-solta, digo, presa, se dispôs a vir aqui para ver de perto o problema. Cá pra nós, eu preferia que tivesse vindo o dinheiro que custou a viagem. Segundo minhas fontes, que preservo até a morte com medo de que o fato de serem minhas fontes manche suas reputações, um Boeing 707 ano 58, como o Sucatão-quase-aposentado que nosso presidente quer trocar por um Airbus de 180 milhões de reais, gasta mais ou menos 7500 litros de combustível por hora de vôo. Cada litro custa aproximadamente 2 reais e 20 centavos. De Brasília a Teresina, o Sucatão percorreria exatos 1.365 quilômetros em uma hora e meia. Portanto, aproximadamente 11.250 litros de combustível seriam gastos. Multiplica aqui, noves fora ali, ida e volta, o custo dessa viagem seria de aproximados R$ 49.500,00. Mas ele estava em Petrolina, eu sei. Pior. Ficou mais longa. Se for considerar que existe um custo com tripulação, Infraero, diárias de ministros, comida, segurança, dá aí, por baixo, uns cem mil reais. Aproximadamente o mesmo custo de mil cestas de alimentos, digamos, emergenciais. Sei, sei, são cálculos primários. Mas eu sou meio superficial, mesmo. Considerando que ele passou uma hora e meia na cidade, tempo suficiente para cometer umas duas gafes, sujar o pé na lama e fazer três discursos de improviso (ai!), foi meio carinha essa visita. Preferia que tivesse mandado uma fita com um discurso só, e um pacote com o dinheiro com um bilhete: "Para os companheiros alagados do Piauí, antes que o Piauí acabe". Confesso que eu não fui ver o Lula. Pra quê? Se ao menos o Ministro da Cultura da Jamaica, Gilberto Gil, estivesse na comitiva, vá lá. Ia ter show de graça. Pra ver o Lula piorando a situação dizendo água, prefiro ver pela tv. É mais quentinho. Era o que ele devia ter feito: economizado essa grana e chamado o Zeca Pagodinho pra tomar umas, olhando a enchente pela tv. O pessoal daqui anda dizendo, esperançoso, que é um fato importante o Presidente da República vir três vezes ao Piauí. Recapitulando as visitas prefiro, sinceramente, que ele não volte mais. Só quando trouxer alguma coisa boa de verdade. Porque parece que ele vem fazer é "tour-tragédia" por aqui. Vejamos: na primeira vez ele trouxe um batalhão de ministros, assessores e aspones para verem de perto o que é fome. Na segunda, para o velório da Deputada Trindade, uma guerreira que, certamente, hoje estaria mais vermelha que a bandeira do PT. Agora, o 'home" veio ver a enchente. Veio, viu e foi embora no Sucatão. Dizem aqui que "quem bebe a água do Parnaíba nunca mais deixa o Piauí". Como ele não bebeu e preferiu água mineral pensando que era do Ceará, resta uma esperança. Esperança que, aliás, anda perdendo a revanche para o medo. Vou confessar: sempre acreditei no Lula. Para os que me acham um filhote do capitalismo, assumo que votei duas vezes nele, inclusive. Mas ando mesmo implicando com o presidente. O fato de ter votado nele me dá esse direito. E tenho implicado porque o que temos visto não é o tal espetáculo do crescimento. O que temos visto é o crescimento do espetáculo. E, enquanto isso, nós glub, glub, glub, glub, glub, glub, glub... Comments:
Caetano: Um Chato
Eu acho Caetano Veloso um chato. Antes que comecem a me atirar pedras, antes que comecem a encher minha caixa postal de e-mails malcriados, antes que meu telefone comece a tocar com os fãs me chamando de herege, me defendo dizendo que essa minha opinião a respeito do sexagenário mais badalado do momento é compartilhada por ninguém menos que o próprio. Caetano também se acha um chato de galochas. Ele disse isso. Ou seja: Caetano é tão chato, mas tão chato, que tem a lucidez de perceber que é um chato. Um cara que aos sessenta anos, tem a coragem de se declarar um chato assumido, só pode ser muito chato. Alguém com tamanha percepção, com tanta clareza a respeito de si mesmo, incomoda. Enche o saco. É chato demais. Portanto, antes que reclamem comigo, reclamem com ele também. Caetano tem a insuportável mania, por exemplo, de defender tudo o que vem da Bahia. Do dendê ao ACM. De Xandy do Harmonia do Samba ao acarajé da Dadá. Da bunda da Carla Perez à ignorância simpática do Popó. Toda vez que se fala em Bahia, pronto: lá vem Caetano levantar a bandeira da baianidade. Tudo é lindo. Betânia é linda. Gal é linda. Gil é lindo. Bobó de camarão é lindo. O mar da Bahia é lindo. Santo Amaro da Purificação é linda. Paulinha é linda. Saco. Chatice. E o pior: a música que talvez seja a mais conhecida dele fala de São Paulo. Pode isso? Caetano tem a horrorosa mania de saber tudo. Para tudo ele tem uma opinião, para tudo ele tem uma frase, para tudo ele encontra alguma coisa pra dizer. É quase um oráculo. Mais um pouquinho e Caetano vai virar um programa de computador pra gente instalar e, quando tiver qualquer dúvida a respeito de qualquer coisa, digitar e ter a resposta em segundos. Caetano tem a antipática mania de comprar briga. Aliás, ele declarou, algum tempo atrás (ao menos eu acho que ele declarou; se não declarou digamos que poderia ter declarado, que é a cara dele) que hoje tem o privilégio de poder dizer o que pensa sem medo. Ora, alguém que diz isso é ou não é um chato? Essa arrogância, essa coisa auto-suficiente, essa coisa de não se acreditar de ninguém é um pé no saco. Debaixo dos caracóis daqueles cabelos já brancos, tenho certeza que existe um cara mais simpático, mais agradável, tentando sair. Um cara que tenha menos certezas, menos opiniões, um cara que agrade mais a todo mundo. Um cara que faça menos coisas, que faça, ao menos, alguma coisa bem mal e que todo mundo possa criticar sem que seja de forma velada. Quem sabe jogar futebol? Caetano devia, além de escrever, compor, tocar, comer acarajé e subir em trio elétrico, tentar jogar futebol. É só o que anda faltando. Eu confesso que não consigo ter mais simpatia pelo Caetano. Me desculpe, viu, Caetano? Desculpem, fãs do Caetano. Mas pra mim já é quase insuportável ouvir uma música, ver uma entrevista, ler um trecho de um livro, seja lá o que for que o Caetano tenha feito, sem ter antipatia. Essa onipresença da baianitude dele incomoda. Me tira do sério. Enche a paciência. É muito chato. Caetano é muito, muito chato. E, eu, assumo aqui, publicamente, que tenho feito terapia para tentar me livrar de alguns problemas, daqueles que se escondem nos porões da memória. Um deles é essa minha mania de achar chatos todos aqueles que considero geniais. Comments: Quinta-feira, Fevereiro 05, 2004
Comments: Domingo, Fevereiro 01, 2004
AVISO DE ATUALIZAÇÃO
Bão... Pra evitar encher a paciência de quem não quer, um pedido: quem quiser saber, via mail, das atualizações do Farinhada, favor mandar um mail para farinhada2004@yahoo.com.br Aí é só dar o e-mail, ok? Ou, então, deixar o aviso aí nos comments. Abração! Comments: Quarta-feira, Janeiro 28, 2004
SÓ NÃO REFORMARAM O SUCATÃO
Agora senti firmeza! O Presidente começou a cumprir as promessas de campanha. Com a reforma ministerial foram criados 2.797 novos cargos no Governo. Para dez milhões faltam apenas nove milhões, novecentos e noventa e sete mil, duzentos e três novos empregos. Apesar de que só em São Paulo mais de um milhão e novecentas mil pessoas ficaram desempregadas em 2003, mas deixa pra lá. Deixa nos dez milhões prometidos, mesmo. Aliás, uma das coisas que mais tem se visto no país é reforma. Já foi reforma no Palácio da Alvorada, reforma da Previdência, reforma ministerial. Só o Sucatão não vai ser reformado. Vão comprar um avião novo. Não dá para um presidente ficar viajando pra lá e pra cá, especialmente para o primeiro mundo, num avião que se chama Sucatão. É mais ou menos como você ser convidado para uma festa chique e chegar num Fusca. Dizem que quem deu essa dica pro Lula foi o Bush Júnior, na última vez que se encontraram. Bush disse: "You are what you drive". Lula não entendeu. Mas o Ministro da Cultura da Jamaica, Gilberto Gil, estava presente, e traduziu: "você é o que você dirige". Sorte que, antes do avião novo, Lula foi pra Índia. Dá pra chegar lá de Sucatão sem passar vergonha. Depois ele vai para Genebra. Não quer ir de Sucatão, mas, pelo visto, não vai ter jeito. A solução vai ser chegar lá de madrugada. Menos gente vai ver. Ou, então, colar um adesivo no pára-brisa do Sucatão: "meu outro avião é um Airbus". Daí fica parecendo um milionário excêntrico. Lá na Índia nosso presidente viajandão disse que os empresários brasileiros choram demais. Ora... Com os juros do jeito que estão queria que eles fizessem o quê? Disse também que os empresários indianos são mais corajosos. Claro. Subsidiado pelo Governo, até eu fico. Os juros lá são de 6 por cento ao ano. Nos Estados Unidos, 1 por cento. No Brasil, 10 por cento. Juros reais, fique bem claro. Lula mandou o recado: "aprendam a vender mais do que a reclamar". Só faltou mandar o pessoal fazer um curso de seis meses no Senac. Ele disse que os indianos, sim, são ousados. Pelo visto, confundiu as coisas. Ele quis dizer que Indiana Jones sim, era ousado. Mas acontece. Vai ver é a cerveja que ele anda tomando com o Zeca Pagodinho. Por falar em andar tomando alguma coisa, nossos digníssimos parlamentares continuam tomando grana da gente com convocações extraordinárias. Que coisa! Cada vez mais penso que o Congresso deveria ser mais ou menos assim: ao invés de gabinetes, deveria ter kitinetes. Nada de apartamentos funcionais, auxílio-moradia, nem coisa nenhuma. Todo mundo morava mesmo em seus Estados de origem. Ninguém tinha salário. Aí, uma vez por semana, o Sucatão passava de Estado em Estado recolhendo os parlamentares e levando pra Brasília. Eles dormiam em suas kitinetes, no dia seguinte pegavam seus macacões (nada de terno!), trabalhavam, passavam no caixa para receber sua diária e, em seguida, o Sucatão os levava de volta pra casa. Pronto. Com certeza era mais econômico. Davam uma utilidade pro Sucatão. E continuava com a jornada semanal de trabalho da grande maioria: um dia por semana. Claro, tem os que insistem em trabalhar mais um pouco. Mas esses, coitados, são meio doidinhos e ficam calados. Se bobear, até devolvem o dinheiro das Extraordinárias. Escondidos do Inocêncio, lógico, que odeia desrespeitar a Constituição. Comments:
O QUE É A "FARINHADA"
Estou há horas tentando colocar aqui o meu perfil e não consigo. Por isso, aí vão algumas informações sobre o blog e sobre mim. Meu nome é André Gonçalves, tenho 35 anos, sou redator publicitário e um dos donos da SA Propaganda, e moro em Teresina, Piauí. É, Piauí. Isso mesmo. Farinhada é uma coluna semanal publicada aos domingos, no jornal O Dia, de Teresina, desde agosto de 2002. Antes, eu escrevi a coluna Na Banheira, diária, na Copa de 2002. É isso. Se você quiser saber mais algo sobre mim, tenho outro blog: clica aqui que você vai lá. Nele, contos, comentários, pequenas bobagens. Além de redator publicitário e colunista, sou também fotógrafo. Clicando aqui você vai para o meu fotolog. Pronto. Agora é só você ficar ligado e mandar suas mensagens e comentários. Aceito críticas, e adoro. São elas que fazem a gente melhorar. Abração, e obrigado pela visita. Um dia eu acerto o template... rs rs rs Comments: Domingo, Janeiro 18, 2004
RECIPROCIDADE JÁ! (Farinhada de domingo, 18 de janeiro de 2004)
Mas diz aí a verdade: aquele piloto americano que deu a dedada para a reciprocidade não é a cara do Larry Passos, técnico do Guga? Pois bem, danou-se! Para ser coerente com essa bobagem que arrumou, se bobear o Governo viajandão brasileiro vai fazer o que mais gosta: vai organizar uma comitiva e viajar para Nova Iorque. Lógico, vai colocar o piloto do avião para dar uma dedada nos americanos, também. E tem de passar na CNN e na Fox, senão não vale. Mais: precisa ser capa dos maiores jornais de lá. Porque reciprocidade que se preza é assim: olho no olho, dente por dente e dedada por dedada! Bem aqui entre nós, e que ninguém nos leia, essa história toda parece birra de menino. Ah, eles fazem assim? Pois agora eles vão ver! E colocam os pobres, ou melhor, os ricos turistas americanos que vêm torrar por aqui seus dólares, gerando empregos e movimentando a tal "indústria sem chaminés", para tirar fotos vagabundas segurando um pedaço de papel ridículo com um número escrito com caneta vermelha. Poderiam, pelo menos, fazer um negócio mais caprichado, não? Parece mesmo coisa de republiqueta de filme. Nem ao menos se dignaram a fazer umas fichas decentes, meu Deus! Nem para usar o Duda Mendonça para criar umas peças legais. Ia ser interessante: americanos segurando um cartaz, com sua identificação, e, no cartaz, uma frase tipo "I Love Lula", ou "Brazil its Beautiful". Se possível, até com uma mulata ao lado. Eles iam adorar e, até, pedir cópias para levarem para os States como souvenir. Mas é engraçado como eles, os ianques, se sentiram incomodados com isso tudo. Percebe-se, na atitude do piloto com cara de técnico do Guga, o sentimento americano de donos do mundo. Certo, nem todos são assim. Uns se acham donos, outros, sócios. Mas é aquela atitude de "quem é você para me barrar e pedir documentos?". É mais ou menos como aquela frase muito utilizada nas blitzen (eu nunca sei o plural de blitz, alguém sabe se é isso aí?): "você sabe com quem está falando?". De certa forma, em sentido figurado ou nem sempre, é isso que nós, brasileiros, fazemos sempre que somos barrados numa barreira policial ou quando furamos a fila no supermercado: damos uma dedada para as instituições e para as leis. Invocamos nossa superioridade e oferecemos um troco pro guarda. Passamos na frente de grávidas e velhinhos que compram fraldas geriátricas. Damos uma dedada para a humildade e para o respeito. A dedada do sósia engraçadinho do Larry Passos serve para que possamos refletir várias coisas. Como, por exemplo, até que ponto uma atitude governamental não passa de burocracia ridícula e, portanto, passível de nos deixar irritados, da mesma forma que a necessidade de preencher fichas e fichas e levar centenas de documentos numa repartição pública qualquer quando só queremos abrir uma loja de balinhas de hortelã no Mercado Central. E tem mais: já que o Governo está usando como escudo o tal "princípio da reciprocidade", estamos todos ansiosos para que ele (o Governo) use o mesmo princípio para dar reciprocidade à confiança que recebeu nas urnas. E dar reciprocidade arrumando os empregos que prometeu, as escolas, a segurança, a saúde pública. Esse sim, é o princípio da reciprocidade que deveria estar sendo badalado. Não o da vingancinha de suburbana da novela das seis. Comments: Sábado, Janeiro 10, 2004
Sobre Coisas Que Ando Implicando - I (Farinhada de domingo, 11 de janeiro de 2004)
Depois dizem que é implicância minha. Mal começou o ano e já tem samba-enredo tocando sem parar na televisão. Daqui até o fim de fevereiro vai ser um tal de "epababaô, ô ô, ê á, Iemanjá meu rei, epalarará" que não acaba mais. Pior: todos são absolutamente iguais. E os títulos? Por exemplo: o samba-enredo da escola de samba carioca Unidos da Tijuca tem o título de "O Sonho da Criação e A Criação do Sonho, A Arte da Ciência no Tempo do Impossível". E o refrão: "É tempo de sonhar/É tempo de alquimia/Querer chegar à perfeição (BIS)/Com tecnologia". Já o da Beija-Flor é: "Manôa - Manaus - Amazônia - Terra Santa... que Alimenta o Corpo, Equilibra a Alma e Transmite a Paz". Olha a letra: "Ajuricaba me chamou/Para luta contra o invasor/Tupã o pai me abençoou/Ressoa o tambor, ôô". Olha o "ôô" aí, gente! Pode, uma coisa dessas? E o do Salgueiro? Preste atenção: "A Cana que Aqui se Planta Tudo Dá, Até Energia... Álcool, o Combustível do Futuro". Sinceridade: dá pra encarar? Para mim, não dá. Pior que, aqui, vai ser do mesmo jeito. Já tem samba-enredo tocando na televisão. Imagine! Nada contra, lógico... Mas muito menos ainda a favor. E não adianta vir dizer que estou implicando com uma manifestação cultural importante, etc etc etc, que eu não estou, não. Estou implicando é com a chatice dos sambas, com a pretensão e idiotice das letras, e com as macaquices de imitação que se faz do carnaval do Rio. Que, como todo mundo sabe, é para inglês ver. Ou melhor: para japonês, alemão ou americano ver. Tenho certeza absoluta de que poderia ser diferente. No mínimo, menos chato. O que fizeram com o carnaval foi um crime. Eu sei que ando meio implicante, mesmo. Sou réu confesso. Ando implicando com muita gente. Por exemplo, com Sandy e Júnior. Fui ver o filme deles. Gente... O negócio não tem pé nem cabeça! Até Teletubbies é mais divertido. Ah, tá... É um filme para adolescentes, sei... É, mas é ruim, assim mesmo. A Sandy, tão bonitinha, tão simpatiquinha, tão inhazinhazinha, continua cantando com voz de sertanejo. Continua "inha". E engraçado: ela dorme, acorda, toma banho, e tá maquiada. Parece a maquiagem da Barbie. Mas o que me incomodou mesmo foi o Júnior. Já que o filme se chama Acquaria, ele fez o papel de água. Insípido, incolor e inodoro. No popular: não fede nem cheira. Certo, não deveria esperar tanto de alguém que se chama Júnior. Mas a interpretação dele foi demais. Ou, no caso, de menos. O melhor do filme é a abertura. Depois, a melhor parte é o fim. O melhor intérprete é o farol abandonado que fica ao fundo em boa parte das cenas. Ruim mesmo. Pior ainda que eu assisti na sala 5, dos cinemas do Teresina Shopping. Pensei que estava com algum problema auditivo mas, depois de perceber que ninguém tinha entendido quase que nenhuma palavra do filme, entendi que o problema não era eu: o som de lá está quebrado. Deviam tomar uma providência. É impossível ouvir qualquer coisa por lá. Será que quem manda naquele treco não percebeu ainda? Será que ficou surdo? Pois sugiro um boicote à sala 5. Enquanto não arrumarem o som, a gente não vai lá. Eu não vou. Porque pagar 12 reais para ver um filme em português e não conseguir entender uma palavra merece que se peça, no mínimo, o dinheiro de volta. Ainda mais se for o filme da Sandy e do Júnior. Tá bom, eu sou implicante. Então vai lá. Quero ver o que me diz depois. Mas não vá dizer que eu não avisei, viu? Comments:
"Lounge" é um Lugar que Não Existe
"Lounge" é a palavra da moda. Tudo agora é ou tem alguma coisa "lounge". Para quem não sabe, "lounge" é uma palavra do português moderno contemporâneo que significa ociosidade, lugar de descanso, poltronear-se, vadiar, espreguiçar-se... Aliás, um tempinho que estou me "loungeando" aqui, que acordei muito cedo hoje... Pronto. Bem, continuando... Já existe a música "lounge", as festas têm "ambientes lounge", já existe, na moda, a tendência "lounge". Enfim, 11 em cada 10 descoladinhos usam "lounge" a cada duas frases. Um ambiente "lounge", ao contrário do que a primeira vista pode parecer, não é um lugar longe pra caramba. Um ambiente "lounge" é um espaço, nas festas, onde as pessoas têm, à disposição, almofadas, poltronas, sofás, para descansar, para esticar as pernas, para recarregar um pouco as forças no meio da balada. Bem, isso em teoria. Na prática, os ambientes "lounge" estão meio longe (trocadilho infame, esse...) de serem locais de descanso. O que mais se vê nas raves por aí (nota do tradutor: rave, outra palavra do português moderno contemporâneo, que se lê "rêive", é uma festa que começa com hora marcada e só acaba quando termina, ou por falta de quem continue dançando ou por morte do DJ) são casaizinhos aproveitando o escurinho e o clima para, digamos, namorarem "lounge" dos olhares mais curiosos. Agora, não é qualquer pessoa que têm acesso a festas com ambiente "lounge", não. A não ser que tenha muito "style", é preciso torcer para um "friend" descolar um "flyer" (palavra do português moderno contemporâneo que, na prática, é o mesmo que "convite", que já virou uma palavra meio "down"). Já a moda com ar "lounge" eu ainda não descobri o que é. Imagino que seja uma tendência onde as roupas têm cara de roupa de dormir, a julgar pela origem da palavra. Baby-dolls devem ser roupas de tendência "lounge", assim como pijamas de bolinhas e ceroulas. Aliás, ceroulas verdes são excelentes para se cair nos braços de Morfeu. Músicas "lounge" são as novas versões das cantigas de ninar. Ouvi outro dia e gostei muito de "Dorme Nenê" em versão "trance" (trance: mais uma palavra do português moderno contemporâneo que designa um tipo de música, algo assim entre o techno e o bate-estacas da construção aí ao lado da sua casa). Já a versão de "Boi da Cara Preta" eu não curti muito, não. Sei lá, ficou algo assim meio "over" (over, leia-se ôver: palavra do português moderno contemporâneo que significa demais, muito, além da conta). Vamos aguardar mais lançamentos. Bem, o fato é que, entre tantas outras, "lounge" é a palavra da vez. Até pouco tempo atrás, ela (a palavra da vez) era "printar".Outro dia mesmo foi "powerful". Mas isso faz parte da evolução da língua. Aliás, poucas línguas mostram tanta força para sobreviver a estrangeirismos como a língua de Camões, que, de certa forma, acaba ficando ainda mais rica. Ainda bem. Ou, em bom português moderno contemporâneo: "fortunately". Comments:
República dos Bananas
Começo a acreditar que somos, na verdade, um país de bananas. Não a República DAS Bananas, mas, sim, DOS bananas. Não creia você que me "incluo fora dessa", não. Isso serve como um mea-culpa, com a carapuça sendo colocada na minha cabeça e servindo direitinho. E porque cheguei a essa conclusão? Ora... Assistindo aos telejornais, às novelas... Vendo e observando as pessoas nas ruas, conversando nas festas. Lendo jornais e revistas. Olhando a vida, simplesmente. Tomemos por exemplo o caso do Gugu. O que ele fez? Nada que não tenha feito antes. Armou (ele, ou a produção dele, tanto faz) uma mentira, colocando gente que não era o que dizia ser dizendo que ia fazer algo que não ia fazer. Nada de novo. Ele sempre fez isso, e briga pela liderança da audiência aos domingos há anos, com atrações do gênero. E aí, o que aconteceu? Foi preciso que a excrescência da tv, os programas do "mundo-cão", mostrassem o que aconteceu. Os mesmos que fazem dos tais membros do PCC, do Comando Vermelho, de tudo isso que não presta, popstars com espaço diário de horas para desfilar suas armas, suas ameaças, suas "realizações em prol da comunidade". E, o que aconteceu? A audiência desses excrementos de telejornalismo disparou. Quer dizer: o mundo-cão mostrando o que está por trás do mundo-cão. E, nós, criticando tanto o mundo-cão, entramos nele para ver a desgraça do apresentador afilhado do Sílvio Santos. Sim, mas e daí? Onde entram os bananas nessa história? Entra no fato de que se começou a discutir a volta da censura, a responsabilidade do Governo em impor limites, e por aí afora. Ótimo, acho que se existe uma concessão pública, o que é feito com essa concessão é, sim, passível de controle pelo "concessor". Mas, vem cá... Não estamos nos livrando demais das responsabilidades, não? Para tudo temos tido uma desculpa. Os motoristas não param nas faixas de pedestres? Culpa do governo, que não educa, culpa da propaganda, que não educa, culpa da sinalização que é deficiente. Ora, e a faixa já não é sinalização? Cadê a sua culpa, a minha culpa? Cadê a culpa de quem não ensina aos filhos o que é respeito pela vida, o que é solidariedade? A tv banaliza a violência? Ué, mas quem é que tem o controle remoto na mão para desligar a tv? Quem é que tem a voz de comando dentro de casa para dizer "isso não, meu filho, que é ruim"? Que tal um teste: vamos, todos, desligar as tvs aos domingos, de 2 da tarde às 10 da noite. O Brasil inteiro. Será que ainda vai existir o programa do Gugu? "As crianças de hoje só pensam em videogame, estão precoces". Caramba, quem compra os videogames? Quem cria os filhos? "Crianças de quatro, cinco anos só pensam em roupinhas da Xuxa". Mas quem tem o poder de comprar ou não, de dizer, simplesmente, "não"? Ah, a violência está absurda. Sim, está. Mas onde nós estamos quando não exigimos e brigamos por mais escolas, por mais empregos? Mas os políticos não prestam. E quem vota, por favor? Não somos eu, você, seu pai, sua avó? Onde está a sua responsabilidade quando você, de dentro de sua "célula-protetora-com-quatro-rodas-e-duzentos-cavalos" com ar-condicionado, parado num sinal de trânsito, simplesmente ignora aquela nariz catarrento que pede um trocado, como se fosse apenas mais um nariz catarrento enquadrado por uma câmera de tv mundo-cão? Viu, quantas desculpas? É isso que eu tenho chamado de "bananalização". Ninguém tem a coragem de assumir sua parcela de culpa. É medo de ser chamado de repressor, de careta, de antiquado. E, por isso, vamos nos transformando em bananas que confundem liberdade com vale-tudo. Que confundem responsabilidade dos governantes com isenção de culpa do cidadão. Somos, sim, uns bananas, com duas pernas, dois braços e duas mãos, lavadas todos os dias nas águas sujas da hipocrisia. Comments:
SOBRE BONÉS
O boné mais antigo de que se tem notícia é um que está em um museu na França, que tem aproximadamente 2.250 anos de existência. A propósito, a palavra boné tem origem na França, mesmo. Na verdade, era o nome que se dava ao ofício das pessoas que viviam de tecer, em malha, coberturas para cabeças, na época chamadas de casquetes de malha. Diz a lenda que em 1800 um açougueiro inglês inventou o boné mais próximo do que conhecemos hoje, feito em gomos, com alça regulável na parte de trás e uma abertura. Essa inovação possibilitaria que se fabricassem bonés em escala industrial, e pessoas com tamanhos de cabeças diferentes poderiam usar o mesmo modelo, já que ele passou a ser regulável. Assim, por conta dessa revolução, tornou-se possível também aos cearenses a utilização de bonés, coisa que, com capacetes, ainda é meio complicado. No final do século 19, especialmente com os atletas americanos de beisebol, tornou-se popular o modelo com copa justa e pala larga. Esse modelo, prático por proteger os olhos dos jogadores do sol e por se manter firme na cabeça mesmo enquanto eles corriam, caiu no gosto do povão ianque. Com o final da 2ª Grande Guerra, o modelo americano (como quase tudo que veio de lá desde então, de hotdog a Britney Spears) tomou conta do mundo, e passou a ser fabricado em diversos materiais: couro, veludo, vinil, PVC, e passou a ter cores vivas e ser utilizado como importante peça de divulgação de marcas. A tal ponto que hoje torna-se quase impossível imaginar um atleta sem um boné. Diz-se na comunidade científica, inclusive, que está em estudos a inclusão do boné como parte integrante do corpo de um piloto de Fórmula 1, que passaria a ser dividido em cabeça, tronco, membros e boné. Diz-se, também, que a Nike está estudando novos modelos para serem utilizados por jogadores de futebol durante as partidas, evidentemente com mensagens publicitárias piscando como aqueles efeitos medonhos da Globo. Serão modelos desenvolvidos de forma a potencializar as cabeçadas, possibilitando aos atletas dar efeitos na bola a um leve movimento de pescoço. Não é a toa que a maioria dos jogadores de futebol agora é careca: eles estão sendo levados aos laboratórios para terem medidas suas cabeças de todas as formas e, no caso de alguns, serem colocados enchimentos no lugar dos cérebros, para eles inúteis. Mas já há casos de rebeldia: Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, está deixando aquele cabelo horroroso e emplastado crescer como forma de boicote. Além dos esportes, a política também usa sobremaneira (sempre quis usar sobremaneira em um texto!) os bonés. Em toda campanha eleitoral, centenas de milhares deles são dados para os eleitores. Aliás, bonés de péssima qualidade, diga-se de passagem. Ao contrário dos bonés dos atletas, os bonés dos políticos são um retrato da imagem da classe: feios, grosseiros, desbotam cedo, rasgam depressa. Mesmo assim, poucos são os homens da vida pública que não se rendem a um boné de campanha. Deve ter sido isso que aconteceu com Lula. Como ele ainda pensa que está em campanha, viu um boné vermelho, pensou que era do PT e tascou na cabeça. Não era do PT. Era do MST. Criou polêmica. Gerou fofoca. Causou revolta. Para mim, nada demais. Foi o típico caso da carapuça servir direitinho. Comments:
HOJE É MEU DIA DE PEDIR (19 de outubro de 2003)
Peço, solenemente, nesse minifúndio de papel, que você, quando me encontrar por acaso em alguma praça verde de Teresina, na areia de qualquer uma das praias de Luís Correa ou em meio às pedras riscadas da Capivara, não reclame do calor. Porque eu gosto, gosto muito de sentir este calor. Prefiro o calor ao frio, e prefiro o muito calor ao morno. Peço, também, que, quando você se der frente a frente comigo, nunca diga que algo ou alguma coisa "nem parece que foi feita aqui". Porque, não parece que foi feita aqui? Não pode? Não foi feita? Então, porque não parece? Se não pudesse ter sido feita aqui, não teria sido. Mas foi. Então não só parece como é daqui, sim. Como ando mesmo um tanto quanto abusado e pidão, peço, com muita "pidança", que você, ao me encontrar numa noite estrelada qualquer, não reclame que não vê nem uma folhinha se mexendo por falta de vento. Eu detesto vento. Adoro a falta de vento. E porque as folhas deveriam estar se mexendo, oras? Deixe elas descansarem, que já trabalharam muito produzindo oxigênio pra gente. Vento também atrapalha o cabelo. No meu caso, nenhuma diferença, mas, no seu, pode fazer. E como minha "pidança" anda desenfreada, peço mais: peço que pare de falar que somos pobres. Não somos. Podemos não ter muito dinheiro. Podemos ter carência em algumas coisas. Mas ser pobre é outra coisa. Ser pobre é não ter alma, não ter alegria, não ter solidariedade, não ser hospitaleiro, não ser simpático. Isso é ser pobre. O fator "dinheiro" não faz ninguém, na verdade, pobre ou rico. Ao menos, é isso que eu acho. Não precisa concordar comigo. Mas, por favor, não nos chame de pobres na minha frente. Não somos. Se você acha isso, pobre é você. Vou continuar pedindo. Não se incomode, é que hoje é nosso dia. No nosso dia dizem que a gente pode pedir o que quiser, não é? Estou, portanto, exercendo um direito que é meu. E vou pedir para que a gente pare de pedir as coisas. Peço que você faça mais e espere menos. Peço que você peça menos aos políticos, aos céus, a quem quer que seja, e realize mais. Construa mais. Valorize mais o que nós temos. Pare de pedir o que quer que seja, principalmente, desculpas. Pare de pedir desculpas por sermos isso ou aquilo. Seja. E tente melhorar o que preciso for. Porque isso me lembra aquelas pessoas que levam a gente para casa, a gente adora a casa, acha tudo lindo, aí a pessoa pede desculpas pela bagunça. A gente começa a prestar atenção na bagunça e esquece que gostou da casa. Não peça mais desculpas. Assuma que precisa melhorar, e lute para melhorar. Você, nós, não devemos desculpas a ninguém por sermos do jeito que somos. Nós somos do jeito que somos, e somos bons assim. Bons, não: ótimos! Melhores que a maioria. Talvez, não tão bons quanto uns poucos, verdade, mas nada que mereça um pedido de desculpas. Por isso, não vou pedir desculpas por dizer essas coisas desta forma para você. Não vou pedir desculpas por esse nariz meio arrebitado que mostro aqui, hoje. Pelo contrário. Peço que você, que nasceu no Piauí ou que escolheu aqui para viver, deixe de se comportar como empregada da novela das oito. Arrebite o nariz. Enrole-se na nossa bandeira de couro de bode. Deixe de se maldizer e agradeça por ser daqui. Mais do que isso: faça por merecer ser daqui. Comments: Sexta-feira, Julho 04, 2003
Efemérides
Hoje, 15 de junho, é o Dia do Paleontólogo. Para quem não sabe, paleontólogo é aquele (ou aquela) que estuda as espécies desaparecidas, baseados nos fósseis que vai descobrindo em suas pesquisas. Não sei bem se a Niede Guidon é paleontóloga, mas creio que seja. Parabéns, portanto, Doutora Niede! Engraçado existir um Dia do Paleontólogo. Gostaria de saber porque escolheram esse dia. Aliás, tinha muita vontade de saber porque escolheram as datas para certas homenagens. Por exemplo, ontem, dia 14 de junho, foi o Dia Universal de Deus. Não sei se o ¿Universal¿ tem algo a ver com a Igreja Universal ou com a onipresença do Criador. Mas, me diga: porque logo o dia 14 de junho é Dia Universal de Deus? Porque não 28 de fevereiro, ou 17 de agosto, ou 31 de novembro? Outra coisa, porque não foi feriado? Ora, se qualquer santinho aí vale um feriadão que emenda quinta, sexta, sábado e domingo, o Dia Universal de Deus merecia, pelo menos, um ponto facultativo durante uma semana, né não? Achei um desprestígio do Onipotente... Dia 24 de junho é Dia Mundial dos Discos Voadores. Como assim? Se no Dia dos Namorados a gente dá presente para nossa cara-metade, no Dia Mundial dos Discos Voadores acontece o quê? Passeios intergaláticos? E quem diabos escolheu esse dia? ET? Steven Spielberg? Dia 25 de setembro é Dia da Tia Solteira. Não achei o Dia da Tia Casada, nem o da Tia Divorciada, muito menos o Dia da Tia Viúva. Acho que nem preciso dizer o que você deve dar para a sua tia solteira, caso tenha uma: um marido. Ou, no mínimo, um noivo. Dois dias depois, 27 de setembro, é Dia do Instalador Hidráulico. Dois dias antes, 23 de setembro, é o Dia da Internet. Dia 29 de janeiro é Dia do Jornalista Católico. 10 de março é Dia do Sogro. 16 de março é Dia do Cavalo. Dizem que os bois ameaçaram uma revolta dizendo-se mais importantes que os cavalos, mas ainda não tiveram um lobby suficientemente forte para emplacar uma homenagem no calendário. E, convenhamos, render homenagens a um bicho que fica babando o tempo todo... Sei não... Já 12 de março é meu dia: Dia do Careca. Olhaí, não achei o Dia do Cabeludo! Seguindo: 7 de abril é Dia da Rádio-Patrulha. Como assim? Andam homenageando até rádio-patrulha? Já a homenagem do dia 2 de maio eu sei onde surgiu: na Bahia. É o Dia da Preguiça. Diz a lenda que era pra ser 2 de fevereiro, mas o pessoal foi deixando, deixando... Já o 25 de maio é Dia do Massagista, do Trabalhador Rural e Dia da Indústria, ao mesmo tempo. Um exemplo de confraternização de classes! Resumindo: todo dia é dia de alguma coisa. Tem Dia do Amigo, Dia do Futebol, Dia da Compreensão Mundial, Dia da Seresta, Dia do Anestesista, Dia da Cruz, Dia do Silêncio, Dia do Taquígrafo. A partir de hoje, acho que vou ficar com o calendário na mão para, todo dia, ver quem é o homenageado, para render as minhas homenagens já que sou um cara educado. Agora, se alguém souber me dizer como diabos vou render homenagens a uma rádio-patrulha, por favor, mande um e-mail. Comments:
Olha, gostei muito de você!
Tenho certeza de que não sou a pessoa mais indicada para falar de Liz Medeiros. Existem dezenas (talvez, centenas) de pessoas muito mais próximas, muito mais amigas, muito mais queridas por ela e que, com certeza, tiveram mais tempo de querer bem a ela, mais histórias, mais alegrias, mais proximidade do que eu. Mas, como ando acreditando cada vez mais que é preciso aproveitar todos os espaços e todos os momentos possíveis para se dizer o quanto se gosta de alguém, vou falar dela. Conheci Liz há pouco tempo. Muito pouco, acredito. E conheci como Beth, olha só. Estive com ela, se não me engano, apenas três ou quatro vezes. Mas, confesso: por algum motivo que incluo naquelas coisas que não tem explicação, foram momentos absolutamente marcantes. Em um desses encontros tive a sorte de ver, ao vivo, Liz pintando um de seus coloridos poemas visuais. Um daqueles quadros que são a cara dela: delicados, alegres, vivos, despojados. Nesse mesmo dia, Liz tentou me convencer a gostar de bolo de macaxeira. Ela me fez comer um pedaço e, com a minha teimosia em dizer que apesar de ótimo eu ainda não tinha mudado de opinião, ela disse algo como ¿ah, é bom demais, melhor que eu como por você¿, com um sorriso maroto. Enchemos a cara de refrigerante e café, eu, ela, minha Renata e o Valdir, comemos macaxeira cozida e outras coisitas que avacalharam nosso regime mas encheram nossa alma de alegria. Em outro desses três ou quatro encontros perguntei, um tanto quanto tímido, se ela topava ¿brincar¿ com algumas de minhas fotos, desenhando, pintando em cima delas. De novo, ela me surpreendeu, e disse que era só escolher as fotos e levar para ela. E, no mais marcante deles, Liz abriu sua casa para que eu e Renata pudéssemos receber nossos amigos na comemoração de nosso casório. Quer dizer: por mais breve que tenha sido nossa convivência, não tem jeito: ela esteve presente em pelo menos um dos mais emocionantes momentos de minha vida, e fez, de outros, alguns daqueles instantes aparentemente banais da vida, exemplos do quanto pequenas coisas podem nos tocar profundamente e nos fazer felizes. Não posso dizer que fui amigo de Liz Medeiros. Mas posso dizer, e isso ninguém vai me tirar, que tive muita vontade de me tornar amigo dela. Inclusive, já estava no nosso calendário: todo dia 17, dia de ¿mesversário¿ de casório, eu e Renata iríamos passar na casa dela pra comprar tomate seco do Valdir, tomar café e, tenho certeza, dar boas gargalhadas que iriam fazer a gente quase se engasgar com pedaços do bolo de macaxeira que ela ia me fazer comer para ver se mudava de opinião. Só o fizemos uma vez. E lá, no mesmo lugar onde eu tinha vivido um momento tão feliz há tão pouco tempo e que, agora, me parecia tão triste, prometi a mim mesmo que ia deixar de cometer um erro que todos nós cometemos e que, ao contrário de alguns outros erros, são irreparáveis: o erro de acreditar que dá para deixar pra dizer amanhã que queremos ser amigos de alguém, que gostamos de alguém, que amamos alguém, que admiramos alguém. O erro de esquecer que, às vezes, a vida não espera aparecer o ¿momento certo¿ para que digamos essas coisas, e nos dá uma rasteira. Sei que não dá para reparar. Mas, como sei que de alguma forma isso vai chegar até ela, digo por aqui: olha, Beth, gostei muito de você. Comments:
Comida (?????) de Avião
Se você está, agora, dentro de um avião, partindo, por exemplo, para Recife, sinto lhe informar: a comida que vão lhe servir é péssima. Melhor. Ou pior, sei lá: já foi péssima um dia. Hoje, nem se pode chamar de comida. Para quem está saindo de Teresina e indo para Recife via Vasp, o avião deve fazer uma escala em Fortaleza. Daqui a pouco, você vai estar recebendo um embrulho de papel aluminizado com um treco dentro. Você acha até que deve ser algo interessante, mas é, apenas, um pão com presunto e queijo. Sem manteiga. Pobreza absoluta. Um pouquinho de manteiga não ia encarecer nada, mas, ao menos, ajudava a descer a gororoba. Ainda não cortaram o refrigerante, nem a água, e, se não me engano, ainda tem cerveja. Mas olha, cerveja com sanduíche frio de pão com queijo sem manteiga é ruim. Não recomendo. Acho que daqui a um tempo vai ser só água, mesmo, mineral sem gelo. Com tendências a evoluir para água de torneira.Vamos seguir viagem. Depois da escala em Fortaleza, você ainda vai para Natal. Não vai dar tempo de você comer nada no aeroporto de Fortaleza, então, contente-se com o pão com queijo e presunto sem manteiga, mesmo. No caminho para Natal, vão lhe servir um pacotinho de batatas fritas tipo Ruffles, com exatos 22 gramas de batatas. E mais refrigerantes. Mas, por favor, não peça um segundo copo, porque os comissários de bordo vão te olhar com a cara meio marota e dizer que não dá tempo. Vai levar uns 20 minutos para chegar, mas a recusa em servir-lhe um segundo copo, creio eu, deva ser porque a certas altitudes leva-se mais de 20 minutos para tomar um segundo copo de refrigerante, e você pode provocar um acidente terrível se o avião começar o procedimento de pouso enquanto toma um copo de 150 ml de Coca-cola. Sigamos em frente. Depois de Natal, sobe o avião de novo. E, desta vez, um novo lanche. Uma comissária (ou comissário) vai passar com uma bandeja cheia de copos de refrigerante e água. E só. Você pode ainda arriscar, quando a loira sorridente lhe perguntar ¿refrigerante, senhor (ou senhora)¿? Você diz ¿quais as opções¿? E ela responde: ¿sim ou não¿. Pode, isso? Eu sei que vão dizer que dar lanche, almoço e jantar em avião custa muito caro, que a gente acaba pagando mais pelas passagens, essas coisas. Mas, poxa, uma passagem Teresina/Recife/Teresina custa 1.137 reais. Não dava, ao menos, para colocar manteiga no pão? Sou do tempo em que a gente recebia uma maletinha com lanches, que a gente levava pros irmãos, pra fazer inveja pros amigos ou de presente para a avó. Tinha brigadeiro, tinha garfinhos, bolo de chocolate. Tinha um monte de coisas gostosas, ao menos para quem tem o paladar infantilizado como eu. E tem mais: acho que não se estudou a fundo a importância de se comer no avião. Para mim, o lanche durante o vôo não é só o ato de se alimentar: é se sentir superior ao resto da humanidade, ao menos enquanto dura o vôo. É relaxar, é esquecer que se está a 5 mil metros de altura numa cápsula pressurizada que pode explodir a qualquer momento, perder as asas ou desaparecer em pleno vôo. O lanche no avião não é só encher a barriga. É encher a alma com a certeza de que se está vivo, e que a vida vale a pena. Mas sanduíche de pão com presunto e queijo, sem manteiga, é o fim da picada. |